"Colchonete é um colchão desnutrido"

Crizoneide era uma moça com seus trinta anos que vivia em um bairro nobre de São Paulo. Dia desses, em sua casa, Crizoneide começa a fazer uma faxina, pois precisava eliminar algumas coisas que lhe causavam problemas, como copos plasticos com resto de cerveja embaixo da cama, restos de comida dentro da geladeira, roupas velhas sujas e amontoadas no armário da cozinha e, claro, um velho colchão que repousava embaixo de sua cama.
Aquele colchão tinha história... Crizoneide tivera noites lancinantes de amor sobre aquelas molas ... eram molas que, se falassem, deveriam ter suas línguas cortadas.
Composto por molas, um tecido azul ao seu redor e uma grande mancha amarelada no centro, a qual se estendia até as beiradas e eventualmente invadia a lateral, o colchão de Crizoneide era algo que lhe incomodava bastante... a parte debaixo de sua cama não podia ser varrida com facilidade e, por ser de mola, era pesado e ela não podia removê-lo em suas limpezas diárias. Acumulava-se a poeira no colchão e isso aumentava ainda mais a caracteristica mancha amarela.
Repleto de ácaros, o colchão precisava ser removido daquele apartamento. Mas como, se perguntava Crizoneide. Imediatamente ela ligou na portaria, para pedir ajuda. No entanto, o porteiro alegou que não poderia deixar seu posto para subir, pois o chefe poderia causar-lhe problemas. Sem outra opção, ela resolveu descer com o colchão de mola, e de casal, até a lixeira em frente ao prédio.
Abriu a porta e chamou o elevador, um daqueles bem antigos que necessitam da mão de alguém na porta para não se fecharem repentinamente. Crizoneide gostava de elegância e coisas clássicas, por isso morava naquele prédio com esse elevador, ao qual ela chamava de "retrô".
Pegou o colchão e aguardou no hall do elevador. O elevador se abriu e Crizoneide deitou o colchão para entrar... já dentro do elevador, começou a levantar a ponta que estava para fora para colocar para dentro... nesse instante, a porta se fechou e o elevador começou a descer, cortando uma das quatro pontas do colchão . Após gritar um cabeludo palavrão, Crizoneide pensou que, enfim, se livraria daquele colchão amarelado e pesado.
Saiu rapidamente do elevador e se dirigiu à parte externa do prédio. Indo em direção à caçamba em frente ao edifício, foi repentinamente parada por um segurança do condomínio. O mesmo alertou:
- Ó... a senhora num pode por isso aí não ... os lixeiro não recolhem. - Mas o que eu faço com isso então ? Já desci e não estou com o menor saco de levar de volta ! - A senhora pode levar no orfanato ali de cima ! Fica umas três quadras para cima, logo depois da avenida.
Após um longo bufar, Crizoneide resolve levar seu grande e amarelado molambo para o tal orfanato. Num sol de 39 graus, ao meio dia, Crizoneide começou a sentir o suor escorrendo no seu rosto. Mesmo suor que começou a escorrer sua maquiagem, pois, para Crizoneide, a maquiagem era uma das coisas mais importantes na vida de uma mulher.
Já dotada de pequenos borrões de maquiagem escorrida, Crizoneide caminhava lentamente com seu colchão de casal sem uma das pontas pelas movimentadas ruas de seu bairro. Ao passar em frente a uma construção, uma grande nuvem de cimento avançou sobre ela, acinzentando as marcas de suor em seu rosto e tingindo de grisalho seu cabelo...
Após esbravejar por meia hora com as pessoas da "obra", resolve ir logo se livrar daquele peso morto. Ela carregava seu colchão virado para a rua ... ao passar em frente a uma poça d´agua, um ônibus jorra todo o conteúdo da mesma sobre o colchão de Crizoneide, molhando a mancha amarela e parte do cabelo de nossa amiga. Com aquele sol, Crizoneide resolve acelerar o passo, para que ninguém descobrisse os segredos que se escondem embaixo de seu cabelo alisado com chapinha.
Crizoneide começo a atravessar a avenida. No meio da travessia, um pombo sobre uma árvore "obrou" sobre o colchão, espirrando um pouco da "obra" em seu rosto. Crizoneide, já em seu limite, olhou para cima e, com os olhos vermelhos, dentes rangendo e pulmão cheio de ar, foi atingida em cheio por um porche que tentava ultrapassar o sinal vermelho a cento e vinte por hora. Crizoneide e seu colchão voaram e ela caiu lado a lado com seu companheiro de aventuras.
Ainda um pouco consciente, Crizoneide pôde ouvir os cidadãos vindo do ponto de ônibus e falando coisas como "Tadinhas da empregadas dessas granfina aqui, né ! Tem que fazê cada coisa !", "Será que ela tinha rezistro na carteira ? Acho que não ... nem uniformi dérum", "será que ela estava indu almoçá ? Hmmmm ... num tem marmita ..."
E ao longe pássaros cantavam... e o colchão era recolhido por um caminhão de lixo enquanto Crizoneide era levada ao hospital.

Escrito por Copatster às 19h12
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